Adoro futebol, como muita gente, não só pela diversão, como pela maneira com que mostra a vida.
Vai começar a Copa do Mundo e, mesmo antes da bola da rolar, ela já tem um tema principal.
Todos os técnicos são burros. Pelo menos, aos olhos da torcida. E todos são teimosos. O saudoso e incontestável Telê Santana, que perdeu duas copas e foi consagrado mesmo assim pelo ótimo futebol do Brasil, saiu do país sob vaias e um bordão criado por humoristas contra uma de suas idiossincrasias: "Bota ponta, Telê!" (Naquele tempo, o futebol ainda ponta-esquerda e ponta-direita)
Dunga não é diferente. Porém, é mais. Muitas seleções vão à Copa sem suas principais estrelas, por conta de contusão. É o caso de Beckham na Inglaterra. De Ballack, na Alemanha. O Brasil, não. Vai sem suas estrelas por opção do treinador.
Ao contrário dos outros treinadores, Dunga convocou um contundido, Kaká, há meses sem jogar, e deixou de lado os que estão em ótima forma: Ganso, o único armador com a perna esquerda do Brasil na atualidade, e dos mais refinados, assim como o esperto e hábil Neymar. O técnico alegou inexperiência. Barrou também Adriano, centroavante matador, campeão brasileiro com o Flamengo, cheio de experiência. No seu caso, Dunga alegou indisciplina. Esqueceu Ronaldinho, que estaria em qualquer outra seleção do mundo. Sem alegar nada.
No lugar deles, levou jogadores dedicados e obedientes como Josué, Ramirez e Grafite. Dunga dá valor ao espírito coletivo, à disciplina, ao comprometimento com o grupo, à fidelidade ao seu comando. Mesmo que Grafite tenha tido apenas 15 minutos em campo para mostrar todo o seu futebol. Fidelidade não precisa ser provada em campo.
Há explicação para tudo, mesmo para o inexplicável. Dunga sempre foi uma vítima. A começar pelo apelido de anão orelhudo e bobo, gozação pura. Foi anti-herói na Copa de 1990, em que seu apelido foi tomado como símbolo de uma era burocrática e perdedora do futebol brasileiro.
Depois Dunga foi herói, como capitão da seleção campeã em 1994. Porém, nunca foi um campeão admirável, um ídolo, um homem capaz de se engrandecer nos momentos importantes. Ao erguer a taça, soltou um palavrão que podia ser perfeitamente entendido por leitura labial. Em vez de magnânimo, é revanchista. Mesmo vitorioso sente-se perseguido, sobretudo pela imprensa. Mesmo no momento grande, ele se apequena.
Dunga pediu apoio do povo brasileiro à seleção, mas nunca foi a campo ao lado do povo, e sim contra ele. Sua história pessoal é provar a todos como ele estava certo e todos os outros errados. Da luta contra essa enorme injustiça coletiva contra a sua pessoa é que ele tira sua fibra e aquela energia brutal para vencer. Dunga fala em sangue, em sacrifício, porque sabe como é enfrentar a tudo e a todos. Na cabeça dele, sempre foi assim.
Vamos a campo com uma turma de guerreiros, em vez do futebol bonito, como gostamos e desejaríamos. Vamos com Dunga, que só quer vencer para atirar a vitória na nossa cara, como um tapa de revide, como quem diz: "viu?". Mas talvez em algum momento, nesse exército formado pelo nosso capitão, brilhe ainda a velha e simpática e irreverente irresponsabilidade que faz a diferença e tornou nosso futebol o melhor do mundo.
Aí, terá valido a pena aguentar tanta grosseria. |