O início deste século trouxe, velha novidade, a volta dos romances fantásticos. Maior fenômeno de massa da literatura contemporânea, a série Harry Potter transformou a ex-dona de casa J.W. Rowling numa das mulheres mais ricas do planeta. O Senhor dos Anéis foi desenterrado de seu tugúrio na literatura cult, levando a obra que J.R. Tolkien escrevera pensando em seus netinhos a um negócio de bilhões de dólares. Segue o mesmo esteio As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, outro autor fantástico que curiosamente se fez conhecer somente pelas iniciais.
Trata-se de um festival com os mesmos ingredientes - crianças, magia, centauros, faunos, bruxas e o diabo a quatro -provavelmente destinada ao sucesso com a ajuda do cinema, ao qual essa avalanche nascida na literatura está muito associada. Hoje, a capacidade de produção de imagens virtuais multiplicou as possibilidades de conversão da imaginação em filme. Contudo, nenhuma dessas séries possui o gênio do maior autor do ramo, estranhamente esquecido pelos produtores de Hollywood, talvez por acreditarem que seja conhecido demais.
Seu nome: Edgar Rice Burroughs.
Burroughs era uma máquina de escrever. Publicou seu primeiro romance, A Princesa de Marte, em 1912. Em 38 anos de atividade literária, até sua morte em 1950, produziu 91 livros - o que significa escrever pelo menos dois ao ano. E não eram livros pequenos, ou pouco ambiciosos. Exigiam dele uma mente livre, onde a criação corria solta. Sua obra mais conhecida é a série de livros sobre Tarzan, mas Burroughs escreveu sobre Marte e outros lugares improváveis, alguns inteiramente inexistentes, como Pellucidar, um mundo imaginário no centro da Terra. Em Tarzan, muito maior no conjunto que o Senhor dos Anéis, sua capacidade de imaginar a selva africana (para alguém que jamais foi à África em toda a sua vida), a caracterização dos personagens, a humanização dos animais, cujo comportamento ganha dimensão de indivíduos com livre arbítrio, dá soberbo realismo a uma história improvável, da mesma forma que ele nos faz crer em Pellucidar - mundo interior aonde nunca anoitece. As melhores aventuras de Tarzan, por sinal as menos conhecidas, são em geral os mais delirantes, como A Cidade do Ouro, onde vivem homens-leões, sob o comando da bela e psicótica rainha Nemone. Ou Opar, onde montanhas de ouro são guardadas por peludões bestiais que veneram a sacerdotisa branca La.
Nas obras de Tolkien, Rowlings e Lewis, o trabalho da imaginação é uma reciclagem da mitologia, como se jogassem a Grécia antiga, as lendas anglo-saxãs e as histórias de bruxaria no liquidificador. A fênix, o unicórnio, os duendes, os elfos e outros seres legendários reaparecem em um contexto nascido de uma bela confusão. O que coloca Burroughs acima dos outros não é somente a sua originalidade, sua imaginação, sua capacidade de dar realidade à fantasia mais absoluta, mas o fato de que isso apenas contribui para o sucesso do suspense que ele cria. Sua habilidade incomum de manipular o enredo, de cortar a narrativa quando os personagens estão à beira do precipício, de voltar a eles de modo inopinado, de criar reviravoltas surpreendentes é uma arte que admirei desde criança. Burroughs foi um gênio da narrativa. Seu estilo, sempre presente, garante que um livro seu sempre é bom, pois conterá os mesmos elementos de suspense que o leitor adora.
Acabo de reler o primeiro livro da série Tarzan ("Tarzan of The Apes"), encontrado no Brasil somente em sebos, mas que achei na Barnes&Noble da Union Square em paper back. Era o último que me faltava para completar a coleção. Pode parecer uma bobagem muito grande, sobretudo para quem não leu, mas Tarzan para mim significa o prazer da leitura em seu grau máximo, reencontrada com um gosto de infância. A maneira como Burroughs conta a história, com tramas desenvolvidas de modo paralelo, levando o leitor de coração na mão até o final, sempre foi para mim uma fonte de inspiração, muito mais do que Garcia Márquez, Sartre ou Dostoiévski. Sempre desejei transpor a habilidade narrativa de Burroughs para temas mais profundos, misturando inteligência e aventura, arte e entretenimento. É a verdade secreta por trás dos meus romances Filhos da Terra e O Homem Que Falava com Deus - e um objetivo que continuo a perseguir no terceiro romance de fôlego que ando escrevendo por estes dias.
Burroughs criava mundos com a maior naturalidade, fosse na África primitiva, no sertão americano ou em outro planeta. A cosmogonia para ele era importante para dar credibilidade à fantasia. Os seres abomináveis que surgem em suas páginas são deformidades derivadas do ambiente que as transformou, da mesma forma que a vida civilizada fez do ser humano um ente maléfico, mesquinho e covarde.
Diferente dos autores fantásticos contemporâneos, sua narrativa se desenvolve ao redor de um herói com poderes extraordinários, mas que nada têm de mágico. Os atributos dos personagens também brotam da sua origem ou da circunstância. Burroughs nos faz crer que o homem comum pode se tornar um super-homem, apoiado somente no seu próprio potencial: físico e caráter. Tarzan não é Tarzan por milagre, mas pela sua criação selvagem, assim como o John Carter dos "Contos Marcianos" é o cidadão comum do qual o extremo perigo extrai virtudes esquecidas no homem amortecido pela vida prosaica. Dada a biografia de Tarzan, a combinação improvável de lorde inglês e fera primitiva deixa de ser incongruente.
Contraponto do mundo decadente que o cerca, o herói de Burroughs é sempre o homem de alma limpa, não corrompida pela sociedade, cuja nobreza natural se mistura à força física a favor do bem. Seu modelo não é 007, o matador frio da obra de outro autor de sucesso em sua época, Ian Fleming. O espião de Fleming realiza suas proezas com ajuda da tecnologia e abandona as mulheres com uma indiferença superior. Tarzan é fiel à sua mulher acima de tudo, assim como John Carter e Korak movem montanhas pela sua amada. Vendo mais nobreza na pureza bruta dos macacos da floresta que no ser humano, Tarzan certamente desprezaria 007, com sua frieza metálica e sua amoralidade. E o filho de Tarzan, Korak, o Matador, faria dele picadinho e o jogaria pela janela.
Tanto Burroughs quanto Fleming obtiveram grade sucesso literário em seu tempo, ao que se deve a transposição de sua obra para o cinema. Os livros de Burroughs foram trazidos para 32 línguas diferentes. Assim como ocorre com Tolkien, em escala ainda maior, muito foi escrito a respeito de suas criações, como a Burroughs Encyclopedia, de Clark A. Brady, com os personagens, fauna, flora, línguas, idéias e outros ingredientes de sua obra. Perdeu-se a conta de quantos livros de Burroughs foram vendidos no mundo - somente da série Trazan, estima-se que quase quarenta milhões de exemplares. Contudo, nos últimos anos, assim como a de Fleming, sua obra passou a ser muito mais conhecida pela película do que pela literatura original, num tempo em que o cinema ainda não tinha os recursos digitais nem produtores capazes de compreender a sua extensão e complexidade.
É pena. James Bond e Tarzan ficaram célebres nas telas, mas nenhum filme ainda consegue reproduzir a emoção e o suspense dos livros de Burroughs. Mais que James Bond, Tarzan tornou-se um personagem caricato, idiotizado, bastante diferente do herói realista de seu criador. Agora que o cinema consegue aproximar mais a imaginação dos romancistas da sua linguagem, Tarzan precisaria ser revisitado, assim como os Contos Marcianos e Pellucidar. Mesmo que isso não aconteça, é preciso manter viva a obra de Edgar Rice Burroughs para os leitores, porque ainda é insubstituível.
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