... “Fazia tempo que não voltava para o acampamento da delegação de São Paulo, na última noite foi lá apanhar as coisas de que precisava, preparando-se para ir embora de Florianópolis como Napoleão da Rússia. A sala estava deserta, luzes apagadas, no chão espalhavam-se restos de comida, bitucas de cigarro e roupas sujas que saltavam das mochilas, uma mistura de fim de feira com praça de guerra. Encontrou seu saco de dormir com uma mancha de meia garrafa de vinho tinto, cheirava a vômito, procurava seu canivete dentro da mochila, quando pelo retângulo luminoso da porta viu a silhueta de uma mulher. Reconheceu-a de longe, assim como a voz:
— Você senta comigo amanhã no ônibus? — perguntou Valentina. — Voltamos juntos?
— Claro — disse ele.
A entonação de Valentina era convidativa, havia nela calor, suavidade, certeza, não precisava mais para dizer a Ivan tudo o que deixara de ser dito entre eles, os convites para comer, os objetos que ela lhe entregara para guardar, todos os pequenos sinais que o deixavam em secreta expectativa de repente ganhavam significado. Mesmo assim, quando a silhueta desapareceu da porta, pareceu-lhe uma alucinação, não viu mais Valentina aquela noite, nem no outro dia inteiro, procurou não criar muita expectativa, dizia a si mesmo, não, não pode ser verdade, e se for ela ainda pode desistir, por isso o coração bateu descontrolado quando, no ônibus de volta para São Paulo, Valentina veio em carne e osso na sua direção. Por via das dúvidas ele procurara dois bancos vagos, ficou meio em pé no primeiro, parecia distraído, seria menos feio se ela passasse direto por ele, mas Valentina jogou sua mochila no bagageiro e sentou ao seu lado, Ivan fingiu grande naturalidade, no mesmo instante em que Gabriel entrava no ônibus, mochila às costas, procurando lugar.
Quinze horas de viagem pareceram nada, ocupadas com beijos apaixonados e os cálidos abraços, os dois mal se ajeitavam nos bancos apertados, com uma velha manta a protegê-los do frio na travessia da madrugada, falavam pouco, palavras tinham pouca importância diante das sensações, Ivan bem que queria lhe fazer mil perguntas, mas com o avanço da noite Valentina adormeceu no seu colo. O amanhecer apanhou-o pensativo, perguntava a si mesmo se Valentina desde sempre vira nele algo diferente de um amigo, ou se descobrira essa diferença aos poucos, talvez durante o congresso, quem sabe tivesse mesmo esperado até o último instante para lhe fazer a surpresa. Achou essa possibilidade muito calculada, a atração do amor não esperava, ou pelo menos não devia esperar, mas isso não importava, o fato é que Valentina estava ali por querer ficar com ele, o encontro não acabaria naqueles bancos de ônibus, sentira isso na maneira como ela o beijara, nos abraços, na mistura de desejo e carinho, todos os seus desejos mais íntimos subitamente se realizavam, a última vaga do círculo valentiniano, a de namorado, estava ocupada. Quando o ônibus chegou na rodoviária de São Paulo o dia era luminoso, Ivan piscava com o sol nos olhos sensíveis, a cabeça pesava com as horas insones, mas ele explodia de felicidade, uma felicidade que podia se espalhar pela sua vida inteira, no final Florianópolis não mudara o mundo, mas mudara o seu mundo, com certeza.”... |