Excerto de Amor e ´Tempestade, meu mais recebte lançamento, disponível em todas as livrarias:
"Entrei na cidade rodando devagar, como quem explora um território abandonado. A Vila Operária era ainda uma pacata geometria de casinhas térreas, esquecidas pelo atropelo urbano. Titia mandara erguer a grade da frente e a antiga porta da casa, à esquerda, tinha sido fechada. Resto de humanidade na fortaleza contra a violência, mantivera a floreira junto ao muro, de onde pendiam as ramagens de Dama da Noite.
A nova entrada passara a ser no cômodo onde no passado ficava o quarto de meus avós. Eles dormiam sob a vigilância de uma cruz de madeira, pregada logo acima da cabeceira da cama. Havia um grande guarda-roupa, a penteadeira com um espelho oblongo de vovó e mais nada. No passado, raro alguém entrava ali.
Lastimei aquele espaço antes tão respeitado se tornar local de circulação.
Da antiga sala, convertida em quarto, restara somente a janela quadrada, por onde se viam as Damas da Noite no jardim. Desaparecera o tapete roxo que eu vira chegar quando criança e lá permanecera até o último dia em que pisara ali, trinta anos mais tarde. Imaginei, como se ainda estivessem no lugar, o velho sofá de quatro lugares, a TV no canto, a poltrona de vovô e a vitrola Phillips, além da estante onde repousavam poucos objetos de decoração — o retrato de um negrinho de engenho pintado por uma tia, a miniatura em bronze de uma gôndola veneziana, a enciclopédia de História Natural.
Pelo corredor central da casa, rumei para a cozinha. Antes tímida, ela tinha sido reformada por vovô para receber toda a família. Avançara sobre o quintal e se transformara no maior aposento da casa. Ainda era exatamente a mesma: a comprida mesa de fórmica, o mesmo par de geladeiras, a pia de aço inox em L onde minha avó cozinhava. O sol da tarde atravessava a janela, iluminando aquele lugar onde um dia estalavam copos e talheres, risos, beijos, abraços e o alarido de gente feliz.
Naquele instante, porém, a cozinha silenciosa lembrava mais a antiga calma dos sábados, quando depois do repasto todos se recolhiam para a soneca, no sofá ou nos quartos. A quietude era tão grande nessa hora que a casa parecia pertencer aos passarinhos assobiando lá fora. Abri a porta de duas folhas, a primeira delas um mosquiteiro que meu avô instalara com suas próprias mãos, e saí para o quintal.
O barranco dos fundos fôra calçado por um muro de blocos de concreto, mas as flores e plantas ainda eram as mesmas cultivadas por vovô. À esquerda, estava o quartinho de despejo onde eu passara tantas horas com ele quando menino. Uma sinfonia de guinchos machucou o ar quando giraram as dobradiças. O quartinho era ainda o mesmo depósito empoeirado e confuso que eu conhecera. Ninguém se atrevera a mexer naquele labirinto intransitável, que desafiava o mais operoso faxineiro.
Autorizado por tia Maria Eugênia, também curiosa por ver o que podia sair dali, naveguei entre pilhas de cadeiras, remexi em cantos visitados somente pelas aranhas e réstias de luz que faziam as teias brancas como açúcar.
Assim eu dei com aquela caixa de papelão, amarelecida pelo tempo, que quase desmanchou na minha mão. Nela, encontrei um lenço rendado, que um dia devia ter sido branco, enrolado como um pergaminho; um escapulário verde, com brocado dourado; uma bandana militar, enegrecida pela fossilização da sujeira; três ampolas de vidro escuro, vazias, e uma caderneta de capa vermelha do “Exercito Brazileiro”, na velha ortografia. Espanto.
Abri a caderneta: lá estava identificado Guaracy Gonçalves Ferreira, solteiro, 19º. Batalhão, novembro de 1923." |