“Quando passou a ser sócio da TAM, que aos poucos iria incorporar comprando a parte dos pilotos fundadores que saíam, Orlando disse que precisaria de um avião somente para o trabalho na Suiá. Ninguém queria carregar o novo dono da companhia – temiam a responsabilidade. Além disso, precisariam morar no sertão. Quando Orlando perguntou aos pilotos quem gostaria de trabalhar na Suiá, ninguém se apresentou. Exceto um.
– Eu vou – disse Rolim.
Rolim pensava que ir para a Suiá seria bom. Sairia por uns tempos de circulação – visado pelo regime militar, ainda estava sob suspeita. Era solteiro, livre para mudar. Além disso, disputando clientes com sete pilotos em Marília, voava apenas de quinze a vinte horas por mês. Gastava o seu dinheiro em restaurantes e na pensão. Na Suiá, teria comida de graça. E voaria muito mais, ganhando também mais. Na fazenda, seria o único piloto: tinha de ser com ele. “O sucesso acontece quando a oportunidade encontra a vontade”, definia Rolim. “Surgiu a oportunidade, eu tinha a vontade e a agarrei.”
Em 1965, Rolim começou a trabalhar como piloto de Maurício Carvalho Monteiro, administrador nomeado por Orlando Ometto para dirigir a Suiá, de quem se tornaria amigo e admirador. Apreciava a maneira como Maurício resolvia problemas. Certa vez, Orlando ligou avisando que iria à fazenda com um número de convidados muito maior do que comportavam as instalações. Em vez de protestar ao telefone, o gerente respondeu com pragmática serenidade:
– Os quartos estarão arrumados para receber todo mundo. Voltaremos quando o senhor for embora. Boa tarde.
Depois, Rolim usaria esse tipo de conduta nos negócios: jamais diria não, mesmo que fosse para mostrar ao cliente como era absurda sua reivindicação.
Na Suiá, ele estava sujeito a muitos riscos, não só no vôo como em terra, infestada pela malária. Utilizava um Cessna 185, apelidado de Cara-Preta, cor do nariz dos monomotores da TAM. Na Suiá, ele era conhecido como “o comandante dos Cara-Preta”, e achava graça naquilo. Procurava estar sempre acompanhado por um índio. Em troca de roupas, comida e bugigangas, os índios o ajudavam a orientar-se na selva durante os vôos (“índio não pesa, é conforto”, dizia aos outros passageiros). No chão sabiam tudo, desde onde era possível tomar banho sem virar almoço das piranhas até evitar as cobras do caminho.
Ninguém queria voar sobre a floresta: na mata interminável, não há onde pousar em caso de pane. “Mas eu só podia buscar mais dinheiro lá”, diria depois Rolim. “Na mata, nem teria onde gastar o dinheiro. Pensei: passo um ano ou dois lá, faço um pé de meia e volto.”
A sede da fazenda ficava no lugar de uma aldeia xavante, no cerrado. Depois de um trabalho de aproximação, os Xavantes foram transferidos para outro lugar. No início, os primeiros funcionários da Suiá ocupavam barracas. Quando os índios foram retirados, passaram para as malocas, dormindo em redes amarradas entre as traves centrais e a trama de galhos que sustentava as paredes de palha de buriti. Por fim, começou a construção da colônia.
Praticamente todos andavam armados. Rolim também trabalhava com um revólver enfiado na cintura. Era uma região difícil. A gasolina chegava de barco, muitas vezes misturada com água. Para abastecer o avião, era preciso primeiro de decantar o combustível.
Depois de construir a sede, os operários começaram a abrir núcleos, muitas vezes a cem quilômetros de distância. Em fins de 1965, a Suiá tinha 22 campos de aviação para atender 3 mil homens nos retiros. Na época, não se desmatava com correntes ou tratores: era no machado. O avião de Rolim trazia tudo para os funcionários que trabalhavam no desmatamento, inclusive a comida.
Muitas vezes, ele levava combustível e alimentos e voltava com trabalhadores acometidos de malária para tratamento.
Toda vez que Orlando Ometto visitava a Suiá, Rolim, Trazzi ou outro piloto da TAM iam buscá-lo em Goiânia. Rolim, contudo, era seu preferido, sobretudo para as pescarias.Orlando adorava pescar e não poupava esforços e dinheiro nesse prazer. Na Barra Bonita, costumava pescar em barranco, onde armava tendas de campanha. Depois montara ranchos nas ilhas do rio Paraná. Quando acabaram os ranchos, encobertos pelas águas das barragens, foi para o Mato Grosso.
De Barra Bonita, mandava na frente o caminhão, com os botes, caixas de gelo, barracas, a matilha de cães para caçar paca, além de um jipe Toyota com seus ajudantes e o violeiro Diogo. O comboio entrava por Ilha Solteira, passava por Paranaíva, Cassilândia, atravessava uma sucessão de serras até o rio Ariranha e virava à esquerda até o rio Taquari, na direção de Coxim.
Muitas vezes o caminhão cruzava trechos sem qualquer tipo de estrada. Os funcionários de Orlando abriam o caminho a foice e machado e construíam pinguelas sobre os rios para fazer passar a carga da pescaria. O caminho mudava de ano para ano, quando as chuvas desapareciam com o trabalho realizado durante a viagem anterior. No final, a comitiva atravessava mais de oitocentos quilômetros entre serras, areais, invernadas e matas. Quando tudo estava pronto, Orlando chegava de avião até o local escolhido.
Rolim pilotava e, muitas vezes, pescava junto com o patrão. Passava a noite nas barracas, ouvindo velhas guarânias na viola de Diogo, comendo paca assada na brasa e pensando na namorada. O violãozinho solitário no meio da mata fazia balançar o coração do jovem piloto.
Por vezes, voava levando Diogo “emprestado” por Orlando a Renato Sampaio de Almeida Prado, seu sócio na Tamakavy, fazenda que abriam ao lado da Suiá. Rolim adorava ficar lá nos fins de semana, ouvindo violão, cantando, comendo rim assado de boi e tomando os uísques de “selo preto” (Black Label) do anfitrião.
Segundo a crença indígena, Tamakavy foi um cacique guerreiro, devorado pelos adversários para adquirir sua força. Cedo Rolim assistiu à fúria de outros devoradores da mata, como o cardume de piranhas que transformou em ossos durante a travessia de um rio a primeira leva de 300 touros da raça nelore comprados a peso de ouro que Maurício Monteiro tentou fazer chegar à Suiá.
Rolim começou a voar muito, consolidando grande experiência numa região difícil e sem apoio. De acordo com a legislação da época, um piloto podia voar no máximo setenta horas por mês, ou fazer cinco pousos e decolagens por dia. Rolim voava vinte horas por mês em Marília, e na Suiá, passou a voar 150. Em média, fazia 35 decolagens diárias.
“Trabalhava como um burro”, dizia. O motor de avião, que em condições normais durava de três a quatro anos, tinha de ser trocado a cada cinco meses. Rolim adquiriu a versatilidade necessária a um piloto nessas condições. Não havia escala. Voava o tempo todo. E, como previra, economizava.
Em paralelo, surgiram outros planos. Além de transportar gente, remédio, médico e comida para a fazenda, começou a receber encomendas dos próprios empregados. Virou mascate, revendendo na Suiá pelo dobro do preço produtos comprados em Goiânia – armas, relógios, lanternas, cigarros, rádios de pilha, roupas íntimas femininas.
O negócio era mais lucrativo quando sobrava mais espaço no avião. Algumas vezes, Rolim ia buscar quatro passageiros e apareciam só dois. Colocava então duas malas extras na bagagem. Com o dinheiro que ganhou nessa época, comprou em Marília seu primeiro carro, um Fusca 1300 azul. Arrematou também 150 bois, colocados no pasto da fazenda do pai de Noemy.
Só saía da Suiá para trazer Maurício ou revisar o avião, a cada 45 dias. Quando visitava os pais em Fernandópolis, dizia que precisava aproveitar o momento. E citava o ditado segundo o qual o cavalo selado passa na porta uma vez só – quem não monta não o pega mais.
Para servir à fazenda, Orlando Ometto mandou construir até a Suiá uma estrada de quinhentos quilômetros, vinda de Barra do Garças. Era uma obra gigantesca, tarefa de envergadura até para o governo federal. Ao longo das estradas que abriria por conta própria, alcançando São Félix do Araguaia, surgiriam no futuro 23 municípios. Rolim passou a dar o apoio áereo para a obra, levando comida e equipamentos para os trabalhadores.
Começou a conhecer pessoas que iam à Amazônia desenvolver projetos como o de Ometto. Algumas visitavam a Suiá com seus próprios aviões. Sem experiência de viajar numa região inóspita como aquela, solicitavam a presença de Rolim para indicar o caminho. Em 1965, apareceu na Suiá, com um táxi fretado da TAM em Marília, Armando Conde, um dos donos do Banco de Crédito Nacional, o BCN. Armando queria sobrevoar aquela área amazônica para comprar terras, com o objetivo de implantar projeto semelhante à Suiá.
Na primeira vez em que se encontraram, numa aldeia xavante dentro da Suiá, Rolim vinha ao longe, com a arma enfiada na cinta, rindo e mostrando a todo mundo uma fotografia que tinha nas mãos. Curioso, Armando foi espiar: tratava-se da foto de um piloto que atravessara a Amazônia e caíra à noite com seu avião dentro da fazenda. Rolim conhecia João Evangelista: chegara a alertá-lo em Goiânia para não ir à Suiá, por causa de sua pouca experiência. Ao saber que desaparecera, Rolim deu busca e encontrou os restos do avião a alguns quilômetros da sede. O corpo de João ficara uma semana na mata – a fotografia era do cadáver devorado pelas formigas.
Horrorizado, Armando olhou o piloto que ria do que devia temer e se perguntou que tipo de homem seria necessário para trabalhar para ele na selva.
Mais tarde, como descobriu, só havia um: o próprio Rolim.”... |