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A odisséia de um jovem rebelde pelo Brasil cheio de conflitos dos anos 1920 para resgatar o amor paterno, sua paixão de infância e a paz interior


Pai e filho fazem uma viagem a Machu Picchu, onde eles encontrarão a mais eterna das amizades e o segredo para enfrentar o medo diante da morte


A saga brasileira de uma família de imigrantes italianos movidos pela paixão no sertão paulista.


Cinco contos de amor revelam a visão masculina sobre os relacionamentos em tempos de reconstrução.


21 perfis com as idéias, a luta, os sentimentos e segredos de 21 brasileiros de sucesso.


A morte de um passarinho e como pais e filhos podem lidar com problemas delicados


A épica vida de Rolim Adolfo Amaro, de quase-mendigo a dono da maior companhia de aviação do país.

 
Eles me disseram

Geraldo Vandré


Às vezes, uma reportagem começa do jeito mais anticonvencional possível. O perfil de Geraldo Vandré, história em que o mais importante não era o sucesso, mas a convivência com o ostracismo, depois da experimentação de um sucesso inaudito, foi assim. Começou, na verdade, com a minha mãe.
Numa tarde de novembro de 1994, dona Marlene Fiorini, já aposentada, caminhava pelo Largo do Paissandu, no centro velho de São Paulo, quando viu um homem solitário a jogar migalhas para os pombos. Aproximou-se e reconheceu seu maior ídolo da juventude: Geraldo Vandré, o célebre cantor e compositor cujas canções moveram o Brasil no tempo da resistência à ditadura militar e mergulhou em um perturbado silêncio depois do seu exílio, dado como louco, ou vítima de tortura.
Vandré a surpreendeu. Mostrou-se simpático e razoavelmente lúcido; conversaram e deram início a uma amizade temporária.
Minha mãe, então, passou a fazer campanha por Vandré. Dizia que eu tinha de fazer uma reportagem sobre ele. Que não estava louco, mas passava por uma boa fase. Que compunha belas músicas e aquilo não podia ficar sem registro. E que eu, seu filho jornalista, precisava fazer alguma coisa a respeito.
É difícil resistir à dona Marlene. Sem mencionar a minha mãe, por razões óbvias, enchi-me de argumentos profissionais para convencer meus chefes na revista Exame VIP – o diretor de redação, Marco Antônio Rezende, e o superintendente do grupo, Antônio Machado - que fazer um perfil de Geraldo Vandré seria importantíssimo. Não fazia tempo, para espanto geral, ele reaparecera num show das Forças Armadas. Perseguido pela ditadura militar, exercia a arte que os homens de farda antes tinham repudiado e perseguido entre as suas próprias fileiras. Não apenas consegui convencê-los, como eles decidiram que Vandré seria personagem de capa de VIP. E lá fui eu atrás do homem.
Apesar das impressões iniciais da minha mãe, falar com Vandré não foi fácil. Ele parecia disposto a conversar com qualquer um na rua, mas não com um jornalista. Ao longo de três meses, freqüentei o edifício onde morava, na Rua Martins Fontes, no centro de São Paulo. Às vésperas de completar 60 anos, vivia de um salário da Superintendência de Abastecimento e Preços, a Sunab – o símbolo da luta contra a ditadura era funcionário fantasma do serviço público. Semi-recluso, não possuía telefone e desligara até mesmo a campainha de seu apartamento. Por isso, eu deixava quase diariamente um bilhete sob a sua porta, na tentativa de convencê-lo a deixar-se entrevistar. Meus chefes tinham passado a querer a história e cobravam o resultado.
Quando eu já havia praticamente desistido, certo dia o telefone tocou. Era Vandré, de um orelhão, disposto enfim a abrir uma janela no seu mundo de sombras. Marcamos nosso primeiro encontro, em seu apartamento, onde ele disse que me concederia a entrevista. Na hora marcada, bati à porta. “Está aberta”, ele gritou, lá de dentro.
Vandré deixara para mim uma cadeira no espaço de pouco mais de um metro quadrado do hall de entrada. Uma barricada feita com uma mesa e uma porção de bugigangas me separava do resto do apartamento. Do outro lado daquela linha que delimitava a área que Vandré me permitira invadir, estava ele, o mesmo Vandré dos festivais da Record, embora envelhecido, no meio de uma inacreditável confusão.
Na entrada, ele pendurara cartazes de seus antigos shows e uma página amarelecida de jornal, da época de sua volta ao Brasil depois do exílio, em 1973 (o título: “Vandré morreu, viva Geraldo”). Por toda a sala, havia caixas de papelão, essas de supermercado, repletas de papéis e recortes, onde ele acumulava suas obra inédita dos últimos vinte anos. Uma mesa sustentava quatro caixas acústicas, ao lado de uma escrivaninha onde ele trabalhava, e de um grande arquivo de metal. Aqui e ali, espalhavam-se objetos insólitos, como um capacete de bombeiro americano e um retrato de Santos Dumont. Não faltava uma bandeirinha do Brasil. As janelas estavam pichadas como um muro de faculdade. Mal havia espaço para se mexer naquela desordem labiríntica, que ele apresentou como o “meu caos”.
Sentado na cadeira, restrito real e metaforicamente, eu fiz as perguntas e ele respondeu do outro lado.
Podia-se dizer que o caos de Geraldo Vandré começara 27 anos antes, quando fora para o Chile refugiar-se da ditadura, interrompendo sua carreira musical no auge do estrelato. Gênio da música brasileira, teve seus discos confiscados e seu maior sucesso de público – o hino libertário Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (ou Caminhando, como preferiam alguns) – foi proibido, o que tornou canção e autor emblemas definitivos do protesto contra a ditadura e sua época. Desde então, a vida de Geraldo se tornou um mistério. Mesmo depois de sua volta ao Brasil, ele nunca mais se apresentou em público – primeiro proibido, mais tarde por decisão própria. Propagou-se que enlouquecera como conseqüências de torturas nos porões da repressão política. Circulou também a versão de que teria sofrido uma lavagem cerebral. E assim, como que lobotomizado, não conseguiria mais compor. O fato é toda essa bruma em torno de Vandré, assim como a herança musical deixada por ele, com clássicos como o épico Disparada o trasladaram para a condição de lenda viva.
Ao ressurgir em 1994 numa festa da Aeronáutica, durante a celebração da Semana da Asa, com um coral de cadetes que cantara Fabiana – composição em homenagem à Força Aérea Brasileira – Vandré retornara aos jornais. Perfilado entre os soldados, ele mesmo nada cantara. Fizera um discurso de apresentação da música e disse que ela vinha de uma tal de “Capitania de Wanmar” – coisa que ninguém entendeu. Mesmo assim, causara surpresa ao mostrar que ainda compunha – e sua nova convivência com o antigo algoz militar.
Quando lhe perguntei sobre as canções que andava compondo, Geraldo puxou uma cadeira, olhando-me do outro lado da barricada, e pegou o violão – aquele mesmo dos festivais da Record. Dedilhou os primeiros acordes de Fabiana e cantou. “Melhorei muito no uso do meu instrumento”, disse-me ele. Quando perguntei qual era, imaginando tratar-se do violão, respondeu: “A voz”. Ao mesmo tempo possante e suave, ela era igual à dos velhos tempos, até mais depurada. “Nunca cantei tão bem”, disse ele. “Afinal, de lá para cá pude estudar mais vinte anos.”
Nos seus dedos, a melodia não tinha a cadência marcial do coro dos cadetes. Não fosse pelo trocadilho FAB/Fabiana, ninguém diria que aquilo tinha relação com os militares. Era uma canção de amor:

Desde os tempos distantes de criança
Numa força, sem par, do pensamento,
Teu sentimento infinito e resultante
Do que sempre será meu sentimento;
Todo teu, todo amor e encantamento,
Vertente, resplendor e firmamento

Vive em tuas asas, todo meu viver
Meu sonhar marinho, todo amanhecer

Como a flor do melhor entendimento
A certeza que nunca me faltou,
Na firmeza do teu querer bastante,
Seja perto ou distante é meu sustento;
De lamento não vive o que é querente
Do teu ser, no passado e no presente;

Vive em tuas asas, todo meu viver
Meu sonhar marinho, todo amanhecer

Do futuro direi que sabem gentes
De todos os rincões e continentes
Que só tu sabes do meu querer silente
Porque só tu soubeste, enquanto infante
Das luzes do luzir mais reluzente
Pertencer ao meu ser mais permanente

Vive em tuas asas, todo meu viver
Meu sonhar marinho, todo amanhecer

Encostou o rosto no violão, como quem enlaçava uma amante de olhos fechados, e emendou no final da melodia um trecho de Caminhando, com um sorriso maroto. “Uma vez toquei Fabiana lá no Hospital de Base e me pediram também essa, não tem jeito”, disse ele. “Aí arrumei uma maneira de emendá-las, assim Fabiana e Caminhando podem ser cantadas juntas.” Se Vandré estava louco, não enlouquecera sozinho. Ninguém diria que um dia ele poderia cantar Caminhando em área das Forças Armadas. “Você imagina absurdo maior do que Geraldo Vandré se sentir mais à vontade para cantar e compor entre militares?”, ele próprio perguntou-me.
O que parecia à primeira vista loucura podia ser o resultado de uma serie de equívocos cometidos com relação a Vandré, talvez porque ele próprio nunca tivesse se preocupado em desfazê-los. Inicialmente alimentado por seu próprio criador, o mito tomara vida própria e de certa maneira soterrara o cidadão paraibano Geraldo Pedrosa de Araújo Dias (o nome artístico Vandré era empréstimo do nome do pai, José Vandregísilo). Por renegá-lo, Geraldo tinha sido tratado realmente como louco, numa atitude que desterrara também outros ídolos da década de 1960, como Sérgio Ricardo, que amargurava o esquecimento, e Wilson Simonal, cuja carreira tinha sido destruída pela disseminação da suposição de que teria delatado colegas à polícia política.
Segundo o mito, Geraldo era um mártir, como se para ser vítima da ditadura, que em última análise destruíra sua vida e carreira, ainda tivesse que passar pelo pau-de-arara. Na vida real, ele recusava esse papel. “Nunca fui preso, torturado, essas coisas que dizem por aí”, afirmou. “Essa é a história que foi vendida pela mídia.” De fato, nada concreto jamais tinha sido levantado nesse sentido. Geraldo não constava de nenhuma das listas do levantamento conhecido como “Brasil: Nunca Mais”, com as pessoas torturadas, presas, processadas ou meramente ouvidas como testemunhas pelo regime militar. Ao todo, o levantamento tinha 17 mil nomes – não encontrar Geraldo Vandré, se tivesse sido preso ou torturado, seria o mesmo que fazer uma relação dos jogadores de futebol brasileiros e não achar Pelé.
“Não há nenhuma razão para não acreditar em Vandré”, me disse o pastor Jaime Wright, coordenador do “Brasil: Nunca Mais”. “Geraldo nunca foi torturado, não levou sequer um tapa”, disse também Carlos Lyra, o Carlinhos, seu ex-parceiro musical, com quem Geraldo manteve relações até 1984. “Ele refugiou-se na casa do Guimarães Rosa, depois na de Mariza Urban, ficando na clandestinidade antes de fugir do país”, declararia Geraldinho Azevedo, seu parceiro em Canção da Despedida, companheiro de conjunto à época e, ele próprio, duas vezes preso e torturado.)
Muito ao contrário do que se poderia esperar do mito Vandré, o cidadão Geraldo não via motivos para ainda ter algo contra os militares. Ao contrário. Disse-me que tinha quatro anos de idade quando explodiu a Segunda Guerra Mundial e que cresceu “imitando o vôo dos caças Tigre nos comboios aéreos”, fazendo os braços flutuarem no ar. A pinimba de Geraldo, pela qual tinha jurado nunca mais cantar no Brasil, era contra a sociedade civil. Tudo porque tinha sido declarado “anistiado político”, quando nem era processado pelo regime militar, tanto que voltara ao Brasil em 1973, muito antes da Anistia (o inquérito policial militar sobre ele e os dramaturgos Dias Gomes e Plínio Marcos tinha sido arquivado em 15 de junho de 1970, por falta de um “dispositivo legal” no qual os acusados se enquadrassem).
“A sociedade civil é que me tratou como um criminoso”, disse Geraldo. Assim como em 1968 ele se recusara a reconhecer o regime militar como um poder de fato ou de direito, recusara-se a ser considerado criminoso por ele e, coerente consigo mesmo, ser “perdoado” na condição de anistiado. Como sempre, Geraldo estava na contramão da História, buscava criar caso, como um anarquista, e a arma que usava era o mesmo: o protesto, agora na forma do silêncio. “É como eu digo em Disparada”, explicou-me, e recitou: “Você pode não concordar/ Não posso me desculpar/ Não canto pra enganar/ Vou pegar minha viola/ Vou deixar você de lado/ Vou cantar noutro lugar.”
O rancor de Geraldo contra o Brasil civil cresceu com o fato de que ele não recebia quase nada pelos direitos de autor das músicas que gravara. “Vandré é contra o sistema de administração do direito autoral no Brasil”, me diria depois a advogada Eliane Abrão, uma das maiores especialistas na matéria do país, que o conhecera quinze anos antes, quando Geraldo freqüentava faculdades de direito para discutir o assunto com os estudantes e rasgava publicamente os cheques que recebia das gravadoras. Nem por rasgar dinheiro, literalmente, Eliane o achava louco. “Considerando a postura radical dele, isso faz sentido”, disse-me ela.
Ele acreditava que a sociedade merecia a ignorância em que ele a deixava, privando-a de sua arte, em função do que chamava de “processo de mass media” – a massificação do consumo, que, do seu ponto de vista, destruía o indivíduo, sobretudo o que fazia arte. Por isso, ele achava que seu caminho era a música erudita, exclusivamente para as elites. “Eu nunca fui popular, eu fui vulgarizado”, disse ele, em tom debochado. Dentro de seu plano elitizante, produzia um “poema sinfônico”, denominado “Capitania de Wanmar” – lugar imaginário, como as Terras do Benvirá, paraíso de esperança que se tornara título e canção de seu último disco, gravado na França, em 1973.
Em sua estrutura, o poema teria uma abertura, um primeiro movimento (chamado As Amazonas) e diversas canções, as chamadas Fabianas. Uma delas era a que mostrara na Semana da Asa, e já compusera outras três. Declamou, então, alguns versos de outra Fabiana, que misturava o seu conhecido tom épico com algo de confessional:

Do riscado do raio a fortaleza
No semblante das praias a beleza
Bem distintos, distantes do bonito
Que se compra e vende na pobreza
De não ser popular nem erudito
Numa feira qualquer da redondeza

Ao inverso do que se divulgava, Geraldo não se transformara em um refém das Forças Armadas quando voltara ao Brasil em 1973. Sua ligação com a Aeronáutica começara muito tempo depois, em 1982, quando procurara o Aeroclube de São Paulo com a intenção de entrar para a escola de pilotagem, devido à sua fascinação por aviões. Obrigado a passar pelos exames regulamentares da Aeronáutica antes de receber seu brevê, foi examinado no Hospital de Base pelo comandante José Gabriel, médico psiquiatra, então chefe do Centro de Medicina Espacial, no Rio de Janeiro.
Os exames, que normalmente duravam uma semana, tinham levado um mês. Geraldo passou a freqüentar regularmente o Hospital Militar e acabou liberado do tratamento psiquiátrico. Mais tarde, eu procuraria o médico para ter mais informações sobre essa passagem. “Estranhei Geraldo à primeira vista”, me disse o médico. “Com a convivência, porém, se pode ver que na verdade ele é uma pessoa gentil, educada, inteligente e livre de algumas das nossas convenções sociais”. Em outras palavras, o médico o colocava naquela zona limite entre os seres normais e os loucos, o que, se não levava Geraldo a uma internação psiquiátrica, também não recomendava que lhe dessem um brevê.
Geraldo tornou-se amigo do médico e de vários membros do alto comando militar. Ainda freqüentava o Hospital da Base. “Como sou sozinho, fiz da Aeronáutica minha família”, me disse ele. De certa forma, o ambiente militar também era perfeito para Geraldo exilar-se, alienando-se de tudo e de todos. Tudo o que ele alegava para não reaparecer em público tornava-se, desse ponto de vista, uma desculpa conveniente, dentro de seus tortuoso processo mental, para fugir à obrigação de sustenatr a aura do “Grande Vandré”, quando ele mesmo tinha consciência de sua fragilidade psicológica. “Nunca poderia fazer mais sucesso do que já fiz”, explicou-me. “Mesmo que eu queime meus papéis, já sou um personagem nacional. Qualquer um que for estudar aquele período da História terá de passar pelo que eu fiz.” Preferia viver como um fantasma de si mesmo, retirado no seu mundo imaginário da Capitania de Wanmar – que retratava não só a sua convivência com os militares, sua observação da alma dos quartéis, seu isolamento na casa de amigos oficiais em bases militares à beira-mar, como a sua própria solidão.
Nesse mundo onde se refugiara, ele podia até se permitir de novo a cantar, porque não estava exatamente no Brasil. Era isso o que queria dizer quando planejava executar seu poema sinfônico “dentro do ambiente das Forças Armadas, onde ele nasceu”. Quem entendesse essa mecânica mental de Geraldo podia enfim compreender a sua coerência na contradição e a fina separação entre a loucura de verdade e a frágil psiquê de um poeta.
Ele apresentaria em abril daquele ano, no auditório da Biblioteca Municipal de São Paulo, sete ensaios que compusera para piano, alguns dos quais faziam parte da Capitania de Wanmar. Pensava, ainda, entregar alguma de suas composições inéditas a intérpretes como Simone, que em 1985 regravara Caminhando, e de quem ele gostava muito. Nesse material, havia preciosidades, como Rosa de Verão, que fizera no começo da década de 1980, considerado por ele mesmo seu “período mais criativo”. Nunca tinha sido cantada em público. Ele tomou do violão mais uma vez e, depois de alguns acordes, a apresentou:

Rosa de verão
Branco sobre o mar
Flora do algodão
No azul do teu olhar
Sonha imensidão
Sonhar é se espraiar
Canta uma canção de marinha.
Geraldo contou ter fugido depois de 1968 por precaução, como tantos outros artistas, como Caetano Veloso e Chico Buarque. Disse que tinha verdadeira “paranóia” de algo viesse a lhe acontecer. Garantiu que recebia ameaças por telefone e estava preocupado com notícias de que a atriz Norma Bengell tinha sido seqüestrada. Antes de passar à clandestinidade, chegara a arranjar um revólver calibre 38, deixado em cima da mesa do camarim e enfiado na cinta quando saía do teatro Opinião, onde fazia o show Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. “Eu não ia deixar que alguém pusesse a mão em mim”, disse ele. “Na verdade a arma não impediria que as Forças Armadas me prendessem, seria até mais um motivo para eu fosse preso. Só hoje, contudo, entendo que de certa forma eles me respeitaram.”
Talvez o maior problema tivesse sido a volta de Geraldo ao Brasil, depois de perambular por vários países e, segundo a lenda, tombar sob o peso das drogas no Chile, até ser trazido de volta por seu pai, em 1973. Fragilizado pelo exílio, pode ter sido dura demais a retratação pública que lhe impuseram como preço para permanecer no país, depois de um mês de interrogatórios no Exército.
Como ocorreu com outros repatriados, Geraldo deu uma entrevista à TV um mês após seu retorno, no aeroporto de Brasília, como se estivesse chegando naquele instante. Afirmou que desejava integrar-se à “nova realidade brasileira” e só “fazer canções de amor e paz”. “Ele deve ter sofrido uma pressão psicológica muito grande para isso”, me diria mais tarde Geraldinho Azevedo. “Quem foi preso sabe como é. Muitas vezes a gente nem admite essas coisas, a impotência é demais para o orgulho. Geraldo antes mesmo já era uma pessoa meio excêntrica, meio paranóica, muito radical. Imagino o que sentiu.”
Geraldo me disse que voltou do Chile porque estava “morrendo”, no sentido de quem morre de saudades. Negou ter se drogado durante o exílio. “Tomei cocaína por seis meses, aqui no Brasil mesmo, até chegar ao ponto da dependência”, disse. “Mas um dia, ao fazer um show numa escola, a voz não me saiu da garganta. Então decidi que era hora de parar. Eu tenho uma fortaleza muito grande. Penso na minha saúde em primeiro lugar, e ao sentir que minha voz tinha sumido...” Depois de ter ido embora do Brasil, foi preso com amigos na França, onde estava em turnê, com um pacotinho (fez com os dedos algo como uma polegada) de haxixe, que ele não considerava droga. Estava no porta-luvas do carro. “Foi uma prisão de cinco horas, mas no Brasil fizeram um estardalhaço danado, sobretudo os jornais”, disse.
No fervilhante caldeirão político de 1968, talvez ele tivesse sido a única pessoa lúcida quanto ao seu verdadeiro papel histórico, não se vendo com o compromisso que lhe impuseram de ser um Che Guevara de viola na mão. Antes de fugir, ele já havia se definido como “um profissional da canção, e não da política”. “Acontece apenas que Caminhando, como todas as outras minhas canções, são decorrentes do meu envolvimento com a vida, e a isso não posso me furtar”, explicou.
No célebre III Festival Internacional da Canção, fora o único a defender a vencedora Sabiá, pedindo calma ao público furibundo contra os jurados que o tinham deixado em segundo lugar. “A vida não resume a festivais”, apelara. “Vocês têm de respeitar o trabalho do Chico e do Tom.” Para mim, afirmou que não tinha noção da dimensão que Caminhando poderia tomar. Deixava o público cantar sua canção em seu show porque “achava bonito”. “Fui apanhado de calça curta”, disse. “Mas todo mundo foi. Até os militares. Ninguém tinha noção exata do que estava acontecendo.”
Claro que a música que fazia tinha conteúdo político - ele sabia. Mas gostaria que se reforçasse nela seu conteúdo cultural, que para Geraldo nunca tinha sido compreendido. Ele tinha suas raízes musicais fincadas no cordel, a arte popular de suas raízes paraibanas, que ele refinava até o ponto da arte, como fazia Guimarães Rosa com a linguagem do sertanejo de Minas Gerais. E o tom de desafio que sua música sempre tivera era o mesmo das emboladas. Como em Disparada (“Prepare o seu coração/ pras coisas que eu vou contar/ eu venho lá do sertão/ eu venho lá do sertão/ e posso não lhe agradar/ aprendi a dizer não/ ver a morte sem chorar/ e a morte, o destino, tudo/ a morte, o destino, tudo/ estava fora de lugar/ eu vivo pra consertar”).
Enquanto Chico era o poeta da metáfora, Geraldo era o poeta da linguagem direta como um soco no queixo. De cada uma de suas composições, podia-se extrair sempre uma forte mensagem de dupla conotação: Réquiem para Matraga, feito para a filmagem do conto de Guimarães Rosa (Vim aqui só pra dizer/ ninguém há de me calar/ se alguém tem de morrer/ que seja pra melhorar); Canção Nordestina (que sol quente, que tristeza, que foi feito da beleza/ tão bonita de se olhar/ que é de deus e a Natureza/ se esqueceram com certeza/ da gente deste lugar). Sabia manipular o sentimento coletivo de liberdade da época com o toque puramente lírico, como em Se a Tristeza Chegar (“Se você quiser/ se você lembrar/ você vai saber/ nunca mais chorar/ e o amor mais lindo/ vai ensinar/ que todos os tristes querendo juntos/ toda a tristeza vai se acabar).
Casado por duas vezes, Geraldo nunca ficara mais de dois anos e meio com a mesma mulher. Naquele momento estava solteiro e não tinha filhos. “Preciso de pouco, porque não tenho responsabilidades”, disse ele. Filosofou que existiam três tipos de homens: os que constituíam família, os sacerdotes e os militares. “Não constituí família e não sou padre. Portanto, sou guerreiro”, disse. “E acho que será dessa forma para sempre.” Levava sua identidade com o espírito castrense à indumentária, vestindo-se de branco, como os oficiais da Aeronáutica. No dia a dia, porém, para a maior parte das pessoas que não tinham tempo ou interesse para prestar atenção nele, isso passava apenas como mais uma de suas excentricidades.

*
Animado com o resultado da entrevista, eu queria acreditar que Vandré não estava apenas em um ciclo positivo, mas totalmente recuperado. Passei por alguns instantes embaraçosos. Levei-o ao estúdio de Bob Wolfenson para fazer as fotos. Ele apareceu com uma camiseta da Força Aérea Brasileira e fez de questão de ser fotografado com ela – fazia campanha de exibir sua nova amizade com as Forças Armadas. Disse a Bob que também fotografava, como hobby.
- Ah! – exclamou o fotógrafo. – E o que você fotografa?
- Nuvens – disse Vandré. – Nuvens e estruturas aeronáuticas.
Pelo olhar que dirigiu a mim, Bob pareceu pensar que eu também devia ser meio doido. Eu me esforçava por explicar que toda loucura tinha uma forma de lucidez, uma lógica interna, uma verdade particular, mas percebi como aquele seria um discurso vazio para o mundo da Razão. De todo modo, Bob fez um série de belas fotos, uma das quais ele mais tarde colocaria num de seus livros de retratos.
Voltei a encontrar Vandré algumas vezes, antes da publicação de VIP, no mês seguinte, março de 1995. Uma delas foi no restaurante do Aeroclube do Campo de Marte, em São Paulo. Vandré parecia mesmo à vontade em meio aos pilotos e oficiais da Aeronáutica, entre os quais de fato encontrara apoio e alguns amigos reais.
Convidei-o para almoçar em minha casa num domingo, e ele foi, embora provavelmente apenas para filar a comida. Entre garfadas de uma macarronada, fez questão de me assegurar que não usava de drogas – não por falta de gosto, mas por não necessitar delas. Segurou o braço com a mão oposta e mostrou que a veia saltava, uma prova de que era capaz de controlar sozinho o ritmo da própria pulsação. Pareceu interessado em conhecer a minha casa, um apartamento de cobertura no bairro do Morumbi, que segundo ele o lembrava dos tempos em que fazia contratos muito maiores que os de Chico Buarque.
Depois de escrever o texto, encontrei-me com Vandré ainda uma vez. Comemos uma esfiha no fast food Almanara, perto de sua casa, pouco antes da publicação da revista. Eu queria prepará-lo para a exposição. Ele parecia estável, mas bastante cético sobre a volta aos palcos ou qualquer tipo de vida artística.
Depois da publicação da revista, eu o procurei algumas vezes, mas não consegui mais encontrá-lo, nem ele respondeu aos bilhetes deixados sob a porta. Certa vez, cerca de um mês após a publicação da revista, ele me telefonou. Reconheci o seu alô e o som da rua, indicando que falava de um orelhão. Porém, não disse nada. É difícil interpretar o silêncio, mas naqueles cinco segundos eu senti no ar um emaranhado de dúvida, vontade e ao mesmo tempo confusão. Talvez ele tivesse, naquele instante, reconhecido sua incapacidade de enfrentar novamente o mundo. Por fim, Geraldo desligou, como se cortasse aquele tênue elo que de repente lhe abrira passagem para a realidade. Desligou e voltou de novo para o seu próprio universo, ou a sua vida de guerreiro, ainda que, no seu caso, o inimigo parecesse ser uma coluna de moinhos de vento.

Abílio Diniz
O empresário ideal é aquele que consegue agregar a visão multinacional do homem cosmopolita ao senso de controle dos donos de padaria.

Era 1997, eu estava de volta à revista Veja, como repórter especial, e recebera do diretor adjunto de redação, Tales Alvarenga, a missão de escrever grandes histórias de negócios para reforçar a seção de economia. Foi por essa razão que bati à porta do empresário Abílio dos Santos Diniz, dono da rede de supermercados Pão de Açúcar.
Levava embaixo do braço uma cartela de slides (ou “cromos”, como chamávamos aquilo no jargão jornalístico, anterior à era digital). Um presente que eu achava muito simpático. Tempos antes, eu andara pela Itália e o sul da França para escrever uma reportagem sobre o começo da carreira do filho de Diniz, Pedro Paulo, na Fórmula 1. Fizera algumas fotos de Pedro no autódromo de Paul Ricard, nas proximidades da cidadezinha medieval de Le Castellet, na França, onde ele andara pela primeira vez no seu novo carro. E queria dá-las a Diniz, na tentativa de tornar mais cordial aquele homem famoso por sua impermeabilidade diante de jornalistas.
Eu já o conhecia, em razão da reportagem com o próprio Pedro. Tinha sido Diniz quem me contara como fizera o filho chegar à Fórmula 1. Na época, ele tinha uma importante rede de supermercados em Portugal, país de origem da família. A Parmalat ficara com um grande estoque de panetones, para o qual não tinha destinação. Diniz ficara com os panetones encalhados, desde que a empresa italiana, tradicional patrocinadora de equipes de Fórmula 1, desse apoio a Pedro para entrar na categoria. Pode parecer estranho que o filho de Diniz tivesse realizado seu sonho graças a toneladas de panetone, mas era daquela maneira que o dono do Pão de Açúcar conseguia as coisas.
Daquela vez, meu objetivo era contar como tinha acontecido a grande virada da empresa. Em tempos anteriores, o Pão de Açúcar quase falira. Como em outras ocasiões de sua vida, porém, Diniz dera a volta por cima. Depois de uma luta fratricida que quase levara a empresa a nocaute, ele retomara o controle da companhia, afastando seus irmãos, e a tirara literalmente do buraco. O Pão de Açúcar, que já tinha sido a maior rede de supermercados do país, tinha sido ultrapassado pela cadeia francesa Carrefour. Ainda estava em segundo lugar, mas deixara de ser uma empresa à beira da falência. Melhor, tomava um impulso inaudito, novamente nas mãos do antigo comandante.
Entreguei-lhe a pastinha com as fotos e mencionei a entrevista que fizera com ele para escrever o perfil de Pedro. Ele, contudo, não se lembrava de nada: da reportagem, da entrevista, muito menos de mim. Olhou as fotos que eu levara, surpreso. Prometeu entregá-las ao filho e me mostrou na sala anexa algumas fotos penduradas na parede, onde Pedro aparecia em provas juvenis. Ele mesmo surgia em algumas delas com seus troféus como esportista. Apesar disso, em vez de me convidar para sentar ali na sala de visitas, levou-me de volta à sua sala de trabalho, como se fosse despachar com um de seus funcionários.
“Estou muito feliz aqui”, ele me disse, na sala que ocupava no centro administrativo do grupo Pão de Açúcar. Localizava-se na sobreloja de seu supermercado, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, um dos pontos mais barulhentos e poluídos de São Paulo. Era o máximo do despojamento, se comparado com o complexo envidraçado que a empresa ocupava em 1990, quando tinha 549 lojas, era a maior rede de supermercados do país e mergulhava num prejuízo de 36 milhões de reais, arrastada pelo Plano Collor e a luta de acionistas. Eu conhecera a antiga sede do Pão de Açúcar, na Avenida Luis Carlos Berrini, e fiquei realmente admirado com o contraste.
A sala de Diniz era a única em todo o edifício com uma janela para a rua, e ela estava fechada. Explicou-me por que preferia estar ali. Era o mesmo quarteirão onde tinha sido a doceria que dera origem ao grupo, cinqüenta anos antes. A volta às origens austeras tinha sido muito benéfica. O Pão de Açúcar ainda era menor que o Carrefour, mas recuperava a rede – as lojas, que tinham caído a 200, eram então 245 - e a saúde financeira, que se tornara invejável. Mesmo com um terço das lojas dos seus tempos de mamute do varejo, o Pão de Açúcar acabara de anunciar o maior lucro de sua história: 140 milhões de reais. Em dois anos, quase dobrara.
“Reconstruímos a empresa, e esse processo ainda está em curso”, afirmou Diniz. Para ele, a reconstrução começou no dia em que ficara sozinho no comando da companhia, com a saída definitiva de seus irmãos do quadro de acionistas, em 1994. No ano seguinte, o Pão de Açúcar abrira seu capital – 24% de suas ações eram negociadas na Bolsa de Nova York. Todos os executivos tinham sido trocados. Os diretores da empresa recebiam ações da companhia em troca de resultados. Diniz expandia a rede de hipermercados Extra, cuja 15a. loja estava em construção, para competir mais diretamente com os hiper-mercados Carrefour.
Mais: Diniz vendera seus supermercados em Portugal e na Espanha, ficando com uma participação minoritária, para concentrar-se no negócio principal. No ano anterior, investira 430 milhões de reais, a maior parte disso na compra e construção de novos supermercados e hipermercados e na criação de uma central única de abastecimento para todas as suas lojas – sua área de armazenamento crescera de 80 000 para 182 000 metros quadrados.
Diniz fazia o que era recomendado a todas as empresas brasileiras diante dos desafios da era global. Em 1995, todas as 2 750 máquinas registradoras da Rede Pão de Açúcar tinham ido para o lixo, substituídas por uma rede de computadores em apenas seis meses. Em 1997, eram 4 000 terminais de computador. Em três anos, o grupo investira 72 milhões de dólares em tecnologia. O atendimento tornara-se mais rápido e os clientes podiam pagar suas contas com o cartão do banco.
A maior vantagem, contudo, estava do lado de dentro do balcão. Com os computadores interligados, a cada venda, a reposição do produto vendido era solicitada automaticamente. O índice de falta de produtos nos supermercados da rede, que era de 15%, caíra para 5%. Foram criados serviços como a entrega das compras em domicílio, em São Paulo. Ao mesmo tempo em que investira na modernização, o Pão de Açúcar ressuscitara um velho personagem dos supermercados – o empacotador de compras.
Em boa parte, a retomada de Diniz se devia ao Plano Real. Nos tempos da inflação desenfreada, os preços eram tão disparatados que valia a pena procurar barganhas em hipermercados longe de casa. Com o Real, os preços estavam mais próximos e a clientela voltava a freqüentar o supermercado mais perto de casa – sendo uma rede antiga, o Pão de Açúcar tinha lojas bem localizadas. Outro fator era o próprio Diniz, capaz de trabalhar com as mangas arregaçadas até mesmo no ambiente refrigerado do escritório.
Ex-corredor de automóveis, maratonista empedernido, Diniz era um competidor nato. Passara esse perfil para os filhos, João Paulo, diretor de desenvolvimento da empresa, triatleta e ciclista, e Pedro, que fizera uma carreira sem brilho dentro das pistas, mas fora delas aproveitara a Fórmula 1 com todo o sue glamour. Diniz procurava inculcar nos funcionários o amor ao esporte e o espírito de luta. Famoso em todo o país desde 1989, quando tinha sido resgatado de um seqüestro diante das câmeras de televisão em cadeia nacional, Diniz parecia ter extraído lições dessa experiência. Ele ainda achava que, ao modo dos velhos caubóis, poderia lidar com os bandidos com as próprias mãos, razão pela qual sete anos antes facilitara o trabalho de seus seqüestradores. Contudo, não dispensava mais um esquema de segurança profissional, assim como ajuda no trabalho.
No Pão de Açúcar, seu papel então era o de reunir todos os recursos disponíveis, disposto a enfrentar o mundo, e mostrar que nada era impossível. “Ficar em primeiro é algo que não depende só de nós”, disse-me ele. “Mas podemos ser os melhores.” Caso o Pão de Açúcar ainda estivesse no prejuízo, a frase seria filosofia barata. Naquele momento, valia para Diniz como dinheiro altissonante.

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Seis anos depois, em 2004, voltei a encontrar Diniz. Tinha sido convidado para uma conversa com ele por Paulo Pímpilio, assessor de imprensa do Pão de Açúcar, encarregado de encontrar para o chefe um ghost writer. Depois da experiência bem sucedida de sua irmã Lucília, que fizera com sucesso um livro contando como conseguira emagrecer, Diniz precisava de ajuda para escrever uma obra assinada por ele mesmo. Pompílio lera a biografia que eu escrevera sobre o comandante Rolim Adolfo Amaro, da TAM, O Sonho Brasileiro, e por uma admiração à qual sou agradecido queria apresentar-me como candidato.
A sede do Pão de Açúcar era ainda no mesmo lugar, na Rua Brigadeiro Luiz Antônio, mas as coisas novamente estavam muito diferentes. O Pão de Açúcar já recuperara o primeiro lugar entre as redes de supermercado do país. Diniz reformara a sede, que não perdera algo da antiga austeridade, mas ocupara não apenas a sobreloja do supermercado como a quadra inteira. Para completar, recebera um verniz mais luxuoso – e algumas janelas.
Perguntei se Pedro gostara das fotos de Paul Ricard que eu tinha lhe entregado. Bem, Diniz continuava não se lembrando de nada: das fotos, de tê-las entregue e de mim. Meio aborrecido, perguntei então sobre o quê seria o livro. “Muitas pessoas me pedem conselhos”, disse Diniz. “Gostaria de fazer isso então por meio do livro.” Pedi que fosse mais preciso. O livro, segundo ele próprio, teria sua receita para manter a forma e como não estressar no trânsito, quando ia de casa para o trabalho, entre outras coisas do gênero.
Pensei que Diniz não se lembrava de nada nunca porque não prestava atenção em muita coisa, além do que girava ao seu próprio redor e era do seu interesse comercial. Eu via poucas possibilidades de fazer um livro com alguém tão focado nos seus propósitos, mas que em consequência não sabia contar histórias, ao menos aquelas em que houvesse outros personagens além dele mesmo. Mais tarde, me desculpei com Pompílio e disse que preferia fazer outro livro, talvez uma biografia de Diniz. Diniz procurou outras pessoas, muito competentes, e o livro saiu, com muito sucesso. Continuei a admirá-lo, graças à imagem mais poderosa que ficou comigo: a daquele homem de mangas arregaçadas no escritório refrigerado, encarnação de um modelo muito particular do empresário ideal: aquele que consegue agregar a visão multinacional do homem cosmopolita ao senso de controle dos donos de padaria. A essa combinação, sem dúvida, o Pão de Açúcar devia o seu ressurgimento


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Daniel Oliveira
A vida permite experimentar todos os caminhos, desfrutar de tudo intensamente - desde que não se perca aquele fio de Teseu no labirinto, capaz de nos fazer voltar.

“O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou; conheceu os jardins do Éden e nos contou”

Eram onze horas da manhã de sábado, primeiro dia de folga de Daniel Oliveira em quinze de trabalho, quando ele apareceu na portaria de um condomínio diante da praia na Barra da Tijuca, um conjunto de flats cor de flamingo, ao redor de uma piscina com palmeiras, imitação dos residenciais de Miami. Sugeri conversarmos na piscina, mas não sabíamos onde estava a porta da pequena cerca que mantinha a área reservada. “Vamos pular”, ele propôs. E subiu numa mureta, passando incontinenti do pensamento à ação. No mesmo instante um guarda, do outro lado, gritou em sinal de que não estava gostando. Daniel se conteve. “Bom, tem lei, então é preciso respeitar”, disse.
Naquele ano de 2005, ele tornara-se um especialista em transgressões. Aos 26 anos, dono de uma carreira meteórica no teatro e na TV, surgia aquele mês no cinema na pele de Agenor Miranda de Araújo Neto, o Cazuza, num documentário em estilo de ficção, para o qual tivera de fazer um mergulho profundo no universo do artista. Cazuza pertencia àquela categoria de ídolos conturbados que se tornam mito por viver e morrer como cantavam, como Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix. Deixara atrás de si uma legião de adoradores e a marca de uma geração.
Não tinha sido no Núcleo de Estudos Teatrais, em Belo Horizonte, onde nasceu, que Daniel aprendera a despir-se de si mesmo e viver como seu personagem, literalmente, para encarná-lo com perfeição. Porém, tinha sido o que fizera para interpretar Cazuza, desde morar onde ele morara, freqüentar os mesmos bares, cometer as mesmas loucuras - onde cabiam as drogas, o bissexualismo, os bacanais. Um coquetel de tudo, misturado por uma ânsia de viver que beirava o risco de vida e terminara de maneira trágica com a Aids, num tempo em que a doença matava em dois anos após ser descoberta. Como Cazuza, mais um herói que se perdera cedo, aos 32 anos, em 1990, Daniel tinha ido ao céu e ao inferno. E nem ele sabia ainda o quanto essa experiência transformara sua vida.
“Vamos lá, estou pronto para tudo”, disse ele, quando sentamos para a entrevista embaixo de um guarda-sol, depois de achar a porta convencional para a piscina. Ainda pouco acostumado a jornalistas, ele tinha aquela timidez recatada dos mineiros e ainda não sabia como lidar com certas situações - como um entrevistador que está ali para vasculhar a sua vida. Por isso, achei que ao menos a qualidade da coragem ele já tinha.
Ali, na minha frente, cabelos levemente encaracolados, camiseta verde como seus olhos, calça jeans, tênis All Star sovado como mandava o figurino nos anos 1980, Daniel se parecia muito mais o Cazuza do filme que o astro em franca ascensão da Rede Globo, que trabalhara nas novelas Malhação, A Padroeira, na minissérie “Um Só Coração” e naquele momento era Luis Jerônimo, protagonista da novela das 6, “Cabocla”.
Era por causa da novela que estava naquele condomínio impessoal, com sala de jogos, vídeo, cabeleireiro e 273 apartamentos, onde passaria dois meses para ficar mais perto das gravações, uma parte delas nos estúdios da TV Globo, em Jacarepaguá. A cada quinze dias, ia para Bananal, no interior fluminense, onde eram feitas as cenas externas, numa fazenda. “Cheguei neste flat anteontem, aqui de meu no apartamento não tem nada”, disse, quando perguntei porque preferira fazer a entrevista ali fora. O vento da Barra da Tijuca soprava, misturando frio ao calor do sol. Pensei em quanto tempo fazia que ele não voltava para sua casa, um apartamento no Jardim Botânico, e no quanto se lembrava de quem ele realmente era.
“Você viu o filme com quem?”, Daniel perguntou, curioso. Cazuza, O Tempo Não Pára, era dirigido por Sandra Werneck, a mesma diretora de Guerra dos Meninos, Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis. Contava a vida do artista desde o tempo em que começou a carreira no chamado Circo Voador, em 1981, passava pelo sucesso com o Barão Vermelho, quando Cazuza chegou a ser classificado por Caetano Veloso como o “maior poeta de sua geração”, até a carreira solo e a luta contra a doença. Mostrava bastante como Cazuza era: uma pessoa livre, que falava o que pensava, agia sem freios, experimentava drogas, sexo heterodoxo, arriscava-se de todas as formas, numa permanente revolução interior, refletida na força e contundência dos seus versos. Ao incorporar a sua personalidade, refazer tudo o que Cazuza fazia, experimentar literalmente a “vida louca, vida breve” transcrita em seus versos, Daniel trouxe o mito à realidade, estrela e vítima dos seus sonhos.
“O que mais chamava atenção nele era esse desejo de aproveitar a vida ao máximo, não ir para a cama dormir porque o dia ainda estava acontecendo, tomar a última dose, esperar a letra vir”, disse Daniel, e no seu arroubo derrubou, sem querer, uma cadeira encostada na mesa de plástico. Cazuza era de extremos. Podia ser o sujeito suave que tomava seu café da manhã, lia no Arpoador e passeava com o cachorro na praia, ou o bêbado febril que vomitava nas boates, tomava todas as drogas que surgissem, cantava homens e mulheres que o apetecessem, num ritmo frenético. Transferida para a música, essa energia gerou a riqueza que permaneceu cantada por ele mesmo e outros intérpretes. Ser o próprio Cazuza, contudo era muito diferente. “Deixa então eu te contar do começo”, disse Daniel.

“Não se render é enfrentar nossa fraqueza”

Quando soube do teste para o filme de Cazuza, Daniel tinha 24 anos. Já tivera no teatro a experiência de um papel pesado, na peça Êxtase, de Walcyr Carrasco, uma história de amor entre dois homens que se apóiam na dependência da droga, vencedora do Prêmio Shell em 2002. Foi visto na peça por integrantes da produção do filme, que gostaram de sua atuação e o incluíram na lista de atores para os testes. Daniel passou pelo funil da seleção, onde havia 60 candidatos, os mais diversos. “Apareceu Cazuza preto, Cazuza japonês, de tudo quanto é tipo”, contou ele.
Para respirar um pouco do clima do personagem, ele alugou um apartamento na rua Dias Ferreira, no Baixo Leblon, nome criado como em oposição ao alto Leblon, onde estão as casas mais elegantes do bairro, contraponto da boemia com a aristocracia, de onde vinha Cazuza. Ao redor de um único quarteirão girava a vida noturna do bairro, palco das diabruras do artista. Já não existiam mais alguns lugares que Cazuza freqüentava, como o Real Astória, a Galeria Alasca mudara de perfil, as antigas boates tinham sido transformadas em igrejas evangélicas e o Circo Voador fora para outro lugar, mas Daniel criara ali o seu “quartel general do Cazuza”.
Convidou para morar com ele dois amigos, Artur Rodrigues e Tom Guimarães, também atores, com quem compunha canções no seu tempo livre, em Belo Horizonte. Daniel nunca tinha cantado, exceto no “quintal dos Guimas”, a casa de Guimarães. Fez com os amigos uma banda informal e circulava pela noite carioca, como Cazuza nos primeiros tempos do Barão Vermelho. “Eu sabia que ia entrar num universo ali que não era mais o do Cazuza, pois os anos 1980 ficaram para trás, mas tinha certeza de que no Leblon respiraria um Cazuza melhor que na Barra da Tijuca”, disse.
Foi só o começo. “Para fazer o que fiz, você tem que admitir tudo o que tem na cabeça do personagem, sem pudores”, disse Daniel. O desprendimento de encarnar o personagem vinha também de uma decisão própria. “Eu queria experimentar”, explicou. “Se eu não fizesse isso, poderia desistir, fazer outra coisa na vida.” Acordava no apartamento diante de um grande pôster de Cazuza, presente da mãe do artista, Lúcia Araújo: “Olhava dentro do olho dele, respirava, começava meu dia com ele.” Fazia sessões de preparação com a atriz e diretora Camila Amado, cuja primeira etapa foi despir Daniel de sua própria personalidade, como se apaga um texto do papel para escrever outro. “Foi uma faxina na cabeça, para que eu me admitisse como um nada, começasse de novo”, contou. “Tinha que ser real, eu não podia ficar fugindo.”
O trabalho durou um ano e meio. Daniel mergulhou no universo de Cazuza. Fez as mesmas leituras – Cazuza adorava a geração beatnik, como Jacques Kerouac, autor de On The Road, que transportava um certo espírito livre para a literatura. Ouvia de Janis Joplin a Dalva de Oliveira, uma espécie de fusão dos roqueiros malditos com uma melancólica suavidade da música brasileira do passado. Fazia aulas de voz com Marise Mueller, a mesma professora de Cazuza, amiga íntima da família. Com Cazuza, Marise trabalhava para tirar do cantor o célebre sibilado. No caso de Daniel, foi para colocá-lo, junto com um certo sotaque carioca. Márcia Rubin lhe dava aulas corporais: “Eu precisava ter o corpo livre, solto, maleável”, disse ele.
De 72 quilos que tinha, com seu 1m74, Daniel caiu para 68. A transformação foi completada por Walter Lima Júnior, que lhe deu aulas de interpretação, ensaiou os membros do Barão Vermelho fictício e reuniu a “turma” - os amigos de Cazuza no filme. Daniel viu repetidas vezes os registros em que o artista aparecia aos doze e aos dezesseis anos de idade, além de todos os seus shows. Repetia seus trejeitos, cantava com ele, até o ponto de imitá-lo de olhos fechados. No filme, Daniel é um Cazuza um pouco mais doce, mas muito semelhante no gesto, nas atitudes e na voz. Graças às artes do produtor Guto Graça Mello, as vozes de Cazuza e Daniel foram mixadas. Às vezes é Daniel quem canta, outras Cazuza, e há vozes mescladas, para o que ele precisou repetir o mesmo movimento dos lábios e língua do artista.
A introjeção de Cazuza não foi somente mímica. Aos poucos, Daniel teve que experimentar a alma que havia por trás do comportamento do cantor, uma espírito livre, disposto a tudo – tudo mesmo. Cazuza pregava uma busca absoluta da felicidade, por trás da qual havia uma algo de ansiedade, de gula, de desespero. Daniel teve então que penetrar nas diferentes facetas do poliedro Cazuza, a começar pelo mais perigoso deles: o fascínio pelo risco.

“Super-herói não morre careca, morre doido”

Numa das cenas do filme, Daniel anda perigosamente pela mureta de um viaduto, brincadeira de Cazuza em suas noites de bebedeira. Abre os braços, como quem quer voar. Cazuza podia morrer, mas ria diante da morte, feliz em estar vivo. Então Daniel começou a descobrir que tinha mais com o artista do que imaginara. “Fiquei ali preso com um cabo de aço, mas nem precisava, porque subi muro desde pequeno”, disse ele. “Sabia que não ia cair. No entanto, a sensação foi real. Ver o vazio lá embaixo, os carros pequenininhos...”
Fez aulas de trapézio na Fundição Progresso, para onde o Circo Voador se transferiu. “Andar sobre viadutos e saltar no trapézio são baratos parecidos, dão sensação de liberdade e perigo, mexem com sua adrenalina, a pulsação”, explicou Daniel. “Você fica diferente lá em cima. Tem de encher o peito de ar e ir mesmo.” Ele começou o treinamento usando proteção, mas pediu que a retirassem. “Eu gosto de ficar pendurado, pedi que tirassem porque queria e porque tinha de ser”, contou. Em duas semanas, aprendeu a técnica para ganhar impulso e enganchar-se no trapézio com as pernas, entre outros movimentos. “Ficou fácil, divertido, foi muito bom”, disse ele. “De qualquer modo, não ia passar do chão.”
Cazuza não era exatamente um viciado, dependente de uma droga só. Usava a droga que tinha, a que encontrava na noite, a que caía na mão – qualquer droga. “Que é que tem aí?”, disse Daniel, com a entonação de Cazuza, quando lhe perguntei qual teria sido a preferida do artista. Ele tinha proximidade com o assunto. Além da peça Êxtase, fizera outro papel de drogado em seu primeiro filme, “O Circo das Qualidades Humanas”, que não chegou a ser exibido em grande circuito. Nele, fazia um psicótico, usuário de drogas pesadas. “A droga invade minha vida”, disse. Quando indago quais foram suas experiências reais, porém, foi reticente. “Não tomei nada”, disse. “Eu uso a droga mais popular, que é o álcool, uma cervejinha de leve, com o cigarro. Sou tranqüilo. Claro, se usasse, não falaria. As pessoas que se expõem demais, que põem a cara, se dão mal. Sou mais de ficar lúcido para fazer o trabalho. A droga te tira disso, te leva para outros caminhos.”

“Existe o certo, o errado e todo o resto”

Cazuza não fazia diferença entre os sexos. Hedonista, gostava do que achava bonito. No filme, Daniel fez várias cenas em bacanais ou tendo relações com outros homens. Não foi a parte mais agradável do serviço. “Saliva de homem, pelo que eu troquei ali, o pouquinho que eu tive, não é a minha praia, é um pouco mais grossa”, diz ele. “Mas procurei encarar o assunto com respeito ao homossexual.” A bissexualidade de Cazuza era diversão, atração, instinto. “Como ele era totalmente livre, não tinha esse tipo de preconceito”, diz Daniel. “Não curto não, véio, mas beijar homem não tem importância, a história é linda, isso não é nada.”
Experiência mais chocante tinha sido sair pelado pela rua, numa espécie de happening, nas ruas do Rio de Janeiro. Certo dia, às nove horas da manhã, o co-diretor do filme, o fotógrafo Walter Carvalho, que trabalhou em Central do Brasil, Lavoura Arcaica e Carandiru, telefonou para Daniel em casa. Apresentou-se e disse que haveria uma exposição do pop rock nacional no Passo Imperial, onde 80 artistas da música brasileira seriam representados na forma de obras de arte. Queria Daniel para fazer uma foto com acetato transparente, chamada Ideologia, em que representaria Cazuza em nu frontal, em um cruzamento superpopulado do Rio de Janeiro.
Consultados seus botões, Daniel disse sim. No dia marcado, uma quarta-feira, em pleno meio dia, foi para um cruzamento do Baixo Leblon. Somente de bermuda, sem cueca, saltou para a rua no instante combinado, no meio da multidão, com Carvalho a acompanhá-lo com a câmera. “Eu estava tão apavorado... Pensei, que loucura, o que estou fazendo, rapaz?”, disse. O sinal fechou, Daniel tirou a bermuda, jogou-a na mão de um segurança, postou-se na faixa de pedestres, diante dos carros parados na primeira fila, e começou a bater no peito, com os punhos fechados. Repetiu o gesto na minha frente, fechando os olhos, e gritou, como uma invocação: “Cazuza... Cazuza...”. Explicou, os olhos a disparar faíscas, espantado consigo mesmo: “Para ganhar coragem, eu chamei o cara! Tive que entrar em contato até com o que não existe. Acreditem ou não, mesmo que isto esteja só na minha cabeça, essa presença do Cazuza me ajudou.”
Repetiu a foto em Ipanema, diante da Igreja Nossa Senhora da Paz (“ato pecador”, disse). Um policial lhe deu voz de prisão por atentado ao pudor, mas o liberou, depois de muita explicação. Resultado de seis aparições, a foto que ficou foi numa banca de jornal do Jardim Botânico, onde ele aparece ao lado de senhoras de idade, que lêem as manchetes penduradas num display. “O pessoal gritava, ‘aí 22’ (gíria de maluco), ‘aí doidão’... Mas já era, a gente ia embora como raio, eu entrava no carro, partia para outra, só deixando aquela sujeira para trás, o burburinho, a agitação.”

“Eu vi a cara da morte, ela estava viva”

No último terço das filmagens, Daniel sentiu na pele a experiência de Cazuza ao receber a notícia de que tinha Aids, sua luta contra a doença e o definhamento. Perguntei se já recebera na vida uma notícia de alto impacto. “Recebi...”, disse ele, baixando a voz a cada sílaba. Insisti em saber qual tinha sido. “Nunca disse isso, não sei se digo”, defendeu-se. Para Daniel, as experiências afetivas com Cazuza, que o levaram a desproteger-se, ainda continuavam a acontecer. Num gesto repentino, ele tomou o gravador de minhas mãos, desligou a tecla REC e me olhou, voz estrangulada: “Foi o suicídio do meu pai”.
Daniel tinha dezenove anos. Seu pai, taxista em Belo Horizonte, matou-se sem deixar explicações. Era um homem “alegre”, apesar da batalha pela sobrevivência. Por necessidade, Daniel trabalhou desde os quatorze anos como “auxiliar de serviços gerais” numa loja de plástico e papel. Deixou de estudar no segundo grau. Aos dezessete anos, estava no almoxarifado de uma loja de material de informática, carregando caixas, para ajudar a família e pagar o curso de teatro nos fins de semana. A morte do pai, dois anos depois, acelerou o seu desejo de experimentar a vida, entrar no desconhecido, desvendar a alma humana. “Foi um momento de ruptura”, disse Daniel. “Eu quis escrever minha história, ainda estou querendo.” Uma motivação semelhante à de Cazuza e outros artistas.
Usou seu sentimento diante da perda do pai para entender a enormidade da notícia da Aids. “Essas experiências sempre servem”, disse, pensativo. “No começo da preparação para fazer Cazuza, eu nem ligava para a doença. E foi melhor assim, a Aids ainda não tinha chegado, nem podia chegar... A impressão de um futuro doente não podia transparecer no meu rosto, nos meus olhos.” Por isso, quando chegou a hora, sofreu também um impacto repentino. Teve menos de um mês para emagrecer, afastado das filmagens. Deixou de comer, tomou remédios para perder o apetite. “Vivi a doença”, definiu. “Eu sentia que estava mesmo mal, perdi onze quilos em três semanas. Foi muito duro, mas eu jogava a minha vida naquele personagem, não podia me queixar.”
Devido ao tratamento com AZT, Cazuza ficou com a pele queimada, escura, acinzentada. Daniel teve que tomar muito sol e fazer sessões de bronzeamento artificial. “A sensação do corpo perdendo a força... A idéia de acabar a vida, tudo o que a gente gosta... Num primeiro momento, vem a revolta”, disse. “É a crônica da morte anunciada, você sabe que vai morrer, e não quer morrer, ninguém quer. Eu canto, eu me divirto, estou no auge, e vou perder tudo isso?” Para Cazuza, que fazia do prazer de viver uma busca apologética, a sentença de morte foi como um raio divino. Veio, depois, uma segunda fase. “Quando a fúria passa, o lado espiritual entra”, disse Daniel. “Quem é positivo faz essa busca de um lugar melhor. Acho que isso passou pela cabeça do Cazuza.”
Na segunda fase de sua carreira, já como portador do HIV, a obra musical de Cazuza, assim como suas cartas e diálogos, refletiram a fase da revolta, sobretudo contra a própria impotência. “Os meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”, disse ele em Ideologia. Suas letras contundentes se moveram para a desesperança, em um mundo que não desejava, com um laivo de ironia. “Quem brincou muito com a vida tem esse desprendimento, brinca também com a morte”, disse Daniel. Sob esse ângulo, o sentido das letras do artista ganhou outra conotação. A célebre frase de Ideologia, “eu quero uma pra viver”, que pode ser lida como um libelo, torna-se também um desabafo perante as coisas que preocupam o mundo, mas se tornam pequenas diante da realidade da morte. Não há ideologia que importe para alguém que está morrendo. Para Cazuza, no fim nem a própria música importava. Estava certo de que os discos também envelheciam e seria esquecido. A vida – só a vida – importava.
Cazuza não foi esquecido, primeiro pela sua geração. Com o Barão Vermelho, Cazuza foi porta-voz dos jovens à época do primeiro Rock in Rio, em 1985. Foi lá, ao cantar “Pro dia nascer feliz” enrolado em uma bandeira do Brasil, diante da multidão delirante, que aqueles que cresceram sob a ditadura militar ganharam subitamente voz. Cazuza permanece ainda como artista e exemplo de coragem. No tempo em que morreu, a Aids era não só fatal como visada pelo preconceito. Havia os chamados “grupos de risco”, homossexuais e consumidores de drogas injetáveis. A disseminação da doença eliminou aos poucos a visão discriminatória, mas a decisão de Cazuza, ao assumir publicamente a luta contra a Aids, ajudou a provocar uma mudança de comportamento. Esse espírito permaneceu na Sociedade Viva Cazuza, dedicada a prestar assistência a portadores de HIV, tocada pela mãe do artista, Lucinha Araújo, que teve um papel importante na vida do filho.
A família, contra a qual Cazuza se rebelava, foi também o seu amparo. O pai, João Araújo, presidente da gravadora Som Livre, cuja profissão sempre envolveu Cazuza nas artes desde criança, foi quem levou o filho para a música profissional, como tentativa de empregar em algo positivo sua incontrolável energia. O filme mostra como, sem querer, João ajudou Cazuza a mergulhar ainda mais em seu universo caótico. O dinheiro familiar também permitiu que se tratasse da melhor forma possível, nos Estados Unidos.
Lucinha, que ia ao apartamento alugado pelo filho limpar a sujeira e recolher as drogas que ele deixava pelo caminho, aproximou-se de Daniel da mesma forma que de Cazuza: com compreensão. “Ela nunca colocou um freio no Cazuza que eu ia criar”, disse o ator. “Sempre me deixou livre para fazer o que eu queria. Então foi ótimo, conversamos, nos emocionamos, revivemos histórias, rimos, tomamos muita birita. Mulher sensacional.” Lucinha procurou separar a experiência de repassar em filme a parte mais dolorosa de sua vida do julgamento estético. “Daniel é um ótimo ator, sensível, dedicado”, me diria ela, mais tarde. “Acho que conseguiu transmitir muito bem a mistura de maluquice com doçura do meu filho.”

“Foi gritando que eu aprendi a cantar”

Daniel saiu de Cazuza com muito mais do que uma revolução interna. Mudou fisicamente. Quando terminou as gravações do filme, foi convidado a fazer o papel de Bernardo, personagem da minissérie Um Só Coração, da Rede Globo, para o qual teve apenas um mês de preparação. Para o novo trabalho, precisou no início pintar as sobrancelhas, engordar a toque de caixa e disfarçar com um boné a careca, herança da fase terminal do personagem.
Mais difícil foi entender o que sobrou de Cazuza dentro dele. “Tudo isso foi experiência, que se acumula”, disse. Daniel passara a ter muitas coisas em comum com um certo Cazuza. Estava no auge da juventude e da carreira, no papel de Luis Jerônimo, o moço da cidade apaixonado por Zuca, a moça humilde da fazenda - papel já clássico que alçara ao estrelato Fábio Júnior em sua primeira aparição como ator, em 1979. Mas também formara uma banda, Pedras Pra Moer, com Artur Rodrigues, Tom Guimarães e André Pfeffer, que fazia no filme o tecladista Maurício Barros, e na vida real era guitarrista de uma banda de reggae. André tinha um estúdio em casa, no Humaitá, tocava no quintal, e eles se juntaram, da mesma forma que começou o Barão Vermelho.
Na banda, Daniel fazia o mesmo papel de Cazuza: compunha e cantava. Brigava com os colegas, pois desejava colocar algumas músicas cover de Cazuza, assim como o artista brigava com Roberto Frejat, na época em que o parceiro de tantas músicas não suportava seus acessos, nem queria tocar qualquer coisa diferente de rock and roll. O ator gostava de ensaiar, trocar idéias, participar de um grupo. “Estou aí na chuva”, disse ele. “Vou cantar mesmo, se vai dar certo não sei, o som não sei se é ideal, mas é o que eu gosto no momento. É uma outra linguagem, diferente da minha, que é interpretação. Ali sou eu mesmo, no palco. E é prazeroso estar cantando, me expressar dessa maneira.” Continuava a morar com os amigos da banda, pretendia tornar-se profissional e realizar uma turnê pelo Brasil. Já tinha prontas dezesseis canções.
Perguntei se era da noite. “Sou do dia e sou da noite”, disse ele, numa resposta que podia muito bem ter saído da boca do seu personagem. Ele contou, então, que era de sua autoria um pensamento cazuziano, na cena do filme em que, já aidético, Daniel/Cazuza senta à mesa de um bar, rodeado pelos amigos: “Eu prefiro os desajustados da noite ao tédio das pessoas que não sabem amanhecer”. “Sonhei com essa frase”, disse Daniel. “Tinha que colocá-la no filme”. Não sabia ao certo que caminho seguir na vida artística, de modo que fazia planos na TV, no cinema, no teatro e na canção. Acreditava, porém, que qualquer rumo seria bom. “Sou totalmente livre para ser o que eu quiser”, disse ele. “A gente é que escolhe, a gente é que traça. Eu tenho o caminho todo pela frente, faço o que quero, o que tenho vontade.”
Daniel foi longe na interpretação de Cazuza, mas na vida real procurava desempenhar um papel mais convencional. Namorava há três anos e meio a atriz Débora Falabella, que também era de Belo Horizonte. Considerava muito importante ter uma relação estável, com uma pessoa dotada das mesmas raízes. “Ela me entende, é da mesma cidade, respirou os mesmos ares, andou pelas mesmas ruas, sua família é dali, estou tranqüilo”, explicou. Pediu à mãe que passasse com ele algum tempo no condomínio na Barra onde ia morar por aqueles tempos, como um porto seguro. Tinha saudade de Belo Horizonte e das “conversas” familiares.
Sem poder voltar para seu apartamento no Jardim Botânico (“o do Leblon era muito pequeno”), fez um balanço do estágio para o qual passava. “Ainda estou me reformulando, me reanalisando, mas sei quem eu sou”, disse Daniel. Pensava no que havia feito como se tivesse ficado velho de repente. “Isso tudo interfere aqui dentro, traz maturidade”, disse. De Cazuza, queria a experimentação. “Ele também queria ser ator, fez curso de fotografia em São Francisco, é a veia do artista”, explicou. Porém, descartava extremos. “Também me arrisco, e gosto que essa adrenalina venha. Mas sempre tive cabeça boa e usei bom senso, procuro não extrapolar muito. Gosto de viver, eu sei como é a vida. E curto.”
A diferença que Daniel ainda tentava manter com o que adquirira do personagem era o limite, aquele limite que para Cazuza não existia. O que ele escrevia era desabafo, tanto quando falava da beleza quanto do desastre. Quando dizia “eu ando tão down”, dizia “eu ando tão dóown!!!”, enfático, como um poeta trágico. Não era cantor, queria berrar, era visceral, seu palco era o banheiro, a cozinha de casa, os restaurantes onde fazia discursos - só depois, mais no final de sua carreira, viria a respeitar mais o palco verdadeiro. Para Cazuza, dar rosas não era suficiente, era preciso que fossem “mil rosas roubadas”, como na letra de “Exagerado”.
Essa vontade de gritar, de transgredir, de viver intensamente, de lutar contra o tempo, é que tornava sempre atual sua obra de 126 músicas gravadas, cantadas por ele e outros intérpretes, como Ney Matogrossso, Caetano Veloso e Cássia Eller. Como Cazuza, Daniel sonhava com essa intensidade. Com uma diferença. Estava disposto a ir ao céu e ao inferno, mas queria ter como voltar.

“A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como as borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não dói.”

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Mais tarde, Daniel levou sua “persona” - um misto de coragem inesperada com um fenótipo de filho desamparado -, para outras novelas da TV Globo e outros filmes, como Zuzu Angel, em que faz o papel do filho da protagonista, o rapaz de boa índole e bem nascido que entra para a guerrilha e morre torturado numa cela da ditadura militar, e Batismo de Sangue, onde encarnou Frei Betto.
Ao escrever sobre ele, minha descoberta foi a de que, apesar de entrar em papéis diferentes, ele era bem isso: uma interessante mistura de docilidade e coragem, capaz de encantar o sexo oposto e lhe render lugar garantido no panteão de estrelas nacionais. Sobretudo, me fez ver como a perfeição é uma obsessão, ainda mais partindo de alguém tão jovem. Daniel se entregava ao que fazia de corpo e alma e, devido à revelação sobre seus sentimentos a respeito do suicídio do pai, mostrava quais eram as suas mais íntimas e poderosas razões.
O perfil que escrevi, publicado na revista Playboy, ganhou um prêmio Abril de jornalismo. Na justificativa do júri para a concessão da láurea, a mais importante do jornalismo em revistas do país, estava a forma “envolvente, fluente, clara e profunda” do texto, sem concessões para “artifícios piegas”. Como acontece com freqüência, o título sugerido por mim (“A volta do céu e do inferno”) tinha sido trocado para “O homem que virou Cazuza” e o texto fora levemente enxugado por razões de espaço.
O corte atingira sobretudo o artifício do qual eu mais gostava: as epígrafes com versos de Cazuza, talvez um recurso piegas, mas que para mim ajudava a lembrar suas músicas e a alma que Daniel buscava interpretar. Ela era o que havia de mais importante naquela simbiose que Daniel experimentara com seu personagem. O mais importante da vida, mostrava Daniel, era experimentar todos os caminhos, viver intensamente - desde que não se perca aquele fio de Teseu no labirinto, capaz de nos fazer voltar.


 

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