Certa vez, um velho amigo, o dramaturgo Walcyr Carrasco, autor de novelas como Chica da Silva, Esperança e Chocolate com Pimenta, que trabalhara comigo em uma revista da Editora Abril, no início dos anos 1990, me indicou para uma editora de livros infantis. No princípio, desdenhei o convite para escrever uma história para crianças: achava aquilo pouco para minhas ambições intelectuais. Tinha em mente um grande romance, muito mais interessante. Minhas razões íntimas para escrever nem sempre foram muito claras. Na minha mais tenra juventude, quando era orgulhoso da minha facilidade para convencer pessoas, formou-se a idéia de que escrever era deitar minha superior inteligência, minha racionalidade cortante, azeitada com um rico vocabulário. Meu romanção pretensioso, no entanto, por alguma razão não se desenvolvia. O texto original foi recusado por editores. Pensando bem, eu também não estava satisfeito. E não compreendia a razão.
Era inteligente, mas a inteligência é cega.
Quando surgiu a indicação do Walcyr para escrever o livro infantil, não dei maior importância. Talvez por isso mesmo, escrevi ali meus verdadeiros sentimentos em um episódio inspirado na infância: uma história singela, sobre a morte de um passarinho, que se transforma em uma pequena parábola sobre a amizade do filho com o pai, e como eles aprendem juntos a lidar com a morte. Quase sem querer, desprovido da preocupação de fazer algo que julgava à altura do meu brilhantismo, fui lançando ali sentimentos, recordações e, oculta na história, a idealização de um tema que hoje vejo recorrente em minha obra: os laços familiares.
Essa pequena obra, Liberdade para Todos, foi para mim, em todos os sentidos, um achado. Foi o meu primeiro texto a encontrar lugar no mercado. Enquanto meu cartapácio inteligentíssimo permanecia na fila das editoras, meu livrinho infantil rapidamente decolava: depois de publicado em 1996 pela Editora Moderna, Liberdade para Todos avançava de edição em edição, ultrapassava os 70 mil exemplares vendidos e suas vendas continuavam se acumulando, muito com a ajuda dos professores de primeiro grau, que o adotam ainda hoje, todo os anos, como livro paradidático. Surpreso, no começo estranhei aqueles milhares de exemplares vendidos. Mais significativo que o sucesso das vendas, era a manifestação das pessoas. Eram cartas de crianças, manifestações de pais encantados com a história, professores que se tornavam fiéis ao livro, falando dele a cada uma das turmas que passavam pelas suas salas de aula. Em suma, gente emocionada.
Vi ali a lição que a inteligência cega desprezara. Percebi meu grande erro. Eu me permitira a emoção, falando com as crianças. Quando tratava de literatura adulta, precisava fazer o mesmo.
Para quem pensava como um velho sábio, daqueles que já nasceu sabendo, foi triste chegar a essa conclusão aparentemente óbvia por acaso, depois de duras penas. Mudar não foi apenas uma maneira de vender livros. Foi mudar a maneira com que eu me relacionava com o mundo, com as pessoas à minha volta: uma revelação de mim mesmo, que teve a força e o valor de uma catarse. Provar inteligência, exibir superioridade intelectual, tudo isso se confundia com a minha ignorância sobre a literatura e a vida. Deixei de me achar assim tão inteligente por dominar os mecanismos da Razão. Nada pior para alguém que tinha a ambição de se tornar um escritor. A racionalidade é a ilusão dos intelectuais. Quando descobri que ela não era o instrumento mais importante desse trabalho, nem do meu julgamento, minha vida melhorou. E enfim consegui terminar meu primeiro romance para adultos, depois de sete anos em que tentava deslindar o motivo pelo qual o texto não se desenvolvia: em vez de produzir o livro calculado, dei vazão ao sentimento.
Meu primeiro romance, “Filhos da Terra”, foi publicado pela primeira vez em 1998, pela editora Siciliano, então com o selo Mandarim. Não por acaso, é um livro sobre gente guiada pela emoção, sentimento puro, expressão de uma época em que eu descobria a beleza de me guiar pelo coração. Cada personagem tem nos seus gestos, idéias e sentimentos alguma coisa de mim mesmo: aos poucos, entrei na pele alheia, ou na minha própria, para descortinar sentimentos desconhecidos, ou fazer dos conhecidos minha própria interpretação. Livrei-me de antigos compromissos – contar com fidelidade a história de um avô, a obrigação de desenvolver um certo estilo que considerava mais conciso, contemporâneo, intelectual, para fazer um romance que me saiu um livrão meio às antigas. Mesmo contra a corrente destes tempos, segundo a qual os editores preferem livros curtos: foi como se tudo aquilo que tinha sido contido dentro de mim durante anos jorrasse de uma só vez.
Descobri que a motivação para escrever livros não vem da razão, mas do sentimento. A literatura é um canal de extravasamento da emoção. Pessoas não lêem livros para comprovar a inteligência de seus autores. Querem algo para si mesmas: ilustrar-se, divertir-se, emocionar-se. Ou tudo isso junto. Hoje acho que quem escreve um livro para parecer inteligente acaba se tornando um chato, ou um tolo. Conheço diversas pessoas com grande talento para escrever, muito inteligentes, que desejam se transformar em romancistas, mas se tornam frustradas porque não compreenderam essa regra básica. Para eles, posso dizer: nunca é tarde para mudar.
Ninguém lê um livro para agradar o autor, mas porque existe essa conexão, para cuja existência é necessária a doação do autor. O romance não pode ser produto da vaidade, do egoísmo, no sentido de buscar o reconhecimento intelectual. Ele é generoso, porque você divide com o leitor suas coisas mais íntimas, mais caras, sua experiência humana. Quando você se doa, o leitor percebe. E esse retorno é que produz o interesse, a venda, o sucesso. E é quando o sucesso se torna merecido.
Muitas vezes me perguntam como alguém se torna um escritor. Para esses, eu digo: é quando o leitor reconhece em você a si mesmo. |